A cecina em Pisa

Foi a Chiara Aiola, local de Pisa e organizadora do primeiro WordCamp Pisa, quem nos deu a recomendação sem hesitar:

“Vão ao Il Montino. É lá que se come a verdadeira cecina.”

E quando alguém diz “a verdadeira”, eu vou.

Seguimos então: eu, o José Freitas, a Alice e o Carlos Moreira.

Quatro pessoas a caminhar pelas ruas estreitas de Pisa, guiados por uma promessa que só quem é da terra sabe fazer.

Il Montino não é o tipo de lugar que aparece em guias para turistas.
É uma porta discreta, paredes gastas, mesas que já ouviram conversas de décadas.
Cheira a forno.
A massa quente.
A azeite que não se esconde.

A cecina chegou à mesa como quem não quer protagonismo: redonda, fina, dourada nos limites, quase tímida.

Quando dei a primeira dentada senti várias coisas ao mesmo tempo:
Aquela resistência leve da camada de cima.
O vapor que escapa.
O cheiro de farinha de grão tostada, simples e honesto.
A textura cremosa por dentro,
O contraste do crocante subtil por fora.

E um sabor que não tenta ser nada mais do que é, e por isso, acerta em cheio.
É um sabor que te obriga a parar.
A mastigar devagar.
A perceber como quatro ingredientes conseguem fazer tanto quando há intenção.

E, ali à mesa, os quatro calados num silêncio só possível quando a comida fala mais alto do que nós.

Aquele pedaço de massa quente não era um snack.
Era contexto.
Era cultura.
Era território.
Era alguém que continua a fazer as coisas como sempre fez, porque não há razão nenhuma para inventar mais nada.

E foi ali, naquele momento, com os dedos ainda mornos de segurar a fatia, que a frase me caiu como uma verdade simples:

Tu não precisas de uma app para isto.

Não precisas de dashboards, nem de features, nem de automações.
Não precisas da ilusão constante de que mudar é sinónimo de evoluir.

Às vezes, o que precisa mesmo de acontecer é isto:
estar numa mesa com pessoas que conheces, a comer algo que não tenta impressionar, mas que te lembra exatamente o que é essencial.

E tudo o resto que vivi em novembro, as viagens, os eventos, os encontros, as salas cheias, os auditórios, as adegas, as aulas,as conversas só confirmou esta ideia.