O que aconteceu à palavra “bom”?

Há um ano deixei Matosinhos e vim viver para Paço de Sousa.

Troquei a agitação pela tranquilidade.
O trânsito pelo silêncio.
As notificações pelo som dos pássaros e dos cães dos vizinhos.

Há quem diga que me tornei anti-social.

Discordo.
Mas gosto da classificação.

Talvez o que tenha mudado seja outra coisa.
Falo menos.

Há uns dias recebi uns amigos cá em casa.

Conversámos.
Comemos.
Levaram cebolas, alfaces, ovos e até folhas de louro daqui da aldeia.

Quando iam embora, agradeci a visita e disse:

“Foi bom estar convosco.”

Notei um ar estranho.
Entraram no carro e seguiram viagem.

Passados uns dias enviaram uma fotografia e agradeceram, de forma um pouco seca.

Perguntei se estava tudo bem.

Responderam-me que sim.
Mas que o “foi bom” lhes tinha parecido distante.
Como se eu não tivesse gostado verdadeiramente da companhia.

E fiquei a pensar nisso.

Em que momento é que “bom” deixou de chegar?
Hoje tudo precisa de ser:

  • excelente
  • maravilhoso
  • incrível
  • brutal
  • imperdível
  • transformador
  • premium
  • de outro nível

E, no meio disto tudo, a palavra “bom” ficou pequena.
Quase insuficiente.
Como se já não soubéssemos reconhecer valor sem o amplificar.

Nos negócios acontece exatamente o mesmo.

Já quase ninguém vende pão.
Vende “uma experiência artesanal de excelência”.

Já ninguém tem um restaurante agradável.
Tem “um conceito gastronómico diferenciador”.

Já ninguém tem um bom produto.
Tem “uma solução revolucionária”.

E talvez o problema comece aqui.

Quando exageramos tudo, destruímos a escala das coisas.

Porque se tudo é extraordinário, o que sobra para aquilo que realmente o é?

Talvez este seja um dos maiores problemas da comunicação atual.
As palavras perderam peso.
Gastámo-las todas.

Há umas semanas voltei a ler A Odisseia, de Homero.
Muito por culpa do novo filme que estreia em julho.
E dei por mim a pensar numa história escrita há milhares de anos que continua viva.
Continua a ser reeditada.
Continua a inspirar filmes.
Continua a atravessar gerações.
E não precisou de se apresentar como:

  • épica
  • imperdível
  • a experiência definitiva

Talvez as histórias que ficam não sejam as que gritam mais.
Talvez sejam as que têm densidade suficiente para sobreviver ao tempo.
E até no cinema já sentimos isto.
Já não basta ver um filme.
Agora temos:

  • IMAX
  • 4DX
  • Ultra Screen
  • experiências imersivas

Tudo maior.
Tudo mais intenso.
Tudo mais “definitivo”.
E eu gosto de cinema.

Mas às vezes pergunto-me se ainda sabemos simplesmente gostar de um bom filme.
Sem precisarmos de o transformar num evento transcendental.

Muitas marcas estão tão preocupadas em parecer extraordinárias que deixaram de conseguir parecer verdadeiras.
E a verdade é que a maioria das pessoas não procura perfeição.
Procura:

  • clareza
  • consistência
  • confiança
    Coisas menos barulhentas.
    Mas muito mais difíceis de construir.

Talvez seja por isso que este ano, no WordCamp Portugal, eu e o José Freitas vamos subir ao palco para falar de duas coisas que nos interessam cada vez mais:
Como criar conteúdo com autoridade sem soar artificial.
E como preparar lojas online para um mundo onde já não são só pessoas a pesquisar… mas também agentes de IA.

No fundo, o desafio é o mesmo: continuar a ser relevante sem cair no exagero constante.

Porque talvez o teu negócio não precise de parecer extraordinário.
Talvez precise de voltar a parecer verdadeiro.

E honestamente?
Foi mesmo bom estar com aqueles amigos.