Ontem fui ao Senhor de Matosinhos

Ainda não tinha ido este ano. Fui com a ‘Bé’.

Nunca tínhamos ido juntos ao Senhor de Matosinhos e aproveitei para lhe apresentar ‘a minha festa’.

Cresci junto ao Parque Basílio Teles em Matosinhos.

A festa cresceu à volta deste espaço ao longo dos anos.

Contei-lhe da loja dos meus avós, de alguns episódios da minha infância tanto com os louceiros, como com os carroceis.

Das Farturas Armando, das barracas de peluches e das corridas de cavalos.

Falamos disto tudo diante de uma tábua de queijos e enchidos transmontanos.

Não sei bem como, demos por nós a falar das diferentes pessoas que aparecem nas festas, seja os visitantes despejados do metro, ou os feirantes.

Como será a vida deles?

Quais as suas motivações e desejos pessoais? Os seus conflitos internos e externos? As relações com os clientes e outros feirantes.

A misteriosa vida das feiras.

Gosto de imaginar todos estes aspetos e tentar criar personagens mais ricos e realistas que pudessem ser personagens principais de um filme.

E se fosse possível pensar em elementos de poder, liderança, conflitos familiares e dilemas morais num personagem da Feira do Senhor de Matosinhos?

Reparei que a Dona Rosa Faneca já não tem vindo ao Senhor de Matosinhos.

No entanto, a sua barraca com os dois fornos sempre a debitar pães quentes com chouriço para alimentar as longas filas que aguardam por tal delícia, continua presente no local habitual.

E se existisse uma história de um vendedor de pão com chouriço como um “Michael Corleone” do Padrinho?

Assim como Michael Corleone, que inicialmente é relutante em se envolver nos negócios da família Corleone, o vendedor de pão com chouriço (Paulo) pode ser alguém que nunca quis tomar a frente do negócio familiar, preferindo talvez seguir outra carreira.

No entanto, circunstâncias familiares, como a idade da Dona Rosa, forçam-no a assumir o negócio.

Confrontado com a necessidade de sustentar o negócio de família face aos crescentes desafios económicos e ao aparecimento de nova concorrência, ele começa a implementar algumas ideias que inicialmente podem parecer controversas.

Disseram-me que já há um Pão com Chouriço sem chouriço ¯\_(ツ)_/¯

Assim como Michael precisa fazer alianças para proteger sua família, também o Paulo pode se encontrar num delicado jogo de negociações com outros vendedores e até com autoridades locais para assegurar a posição de seu negócio.

O crescimento e sucesso vêm com um custo pessoal elevado.

Isto pode envolver sacrifício pessoal, distanciamento de amigos antigos e até familiares.

À medida que o negócio cresce, também crescem as tensões dentro da família.

Numa reunião tensa, Joana, a cunhada do Paulo, exigiu mudar o nome da barraca e incluir o nome dos filhos e noras.

As discussões acaloradas trazem à tona antigas rixas e ressentimentos.

Eu e a Bé, rimo-nos do nosso delírio.

Esvaziamos os nossos copos para acompanhar os últimos pedaços de chouriça e alheira que restavam na tábua.

Decidimos ‘voltar à festa’ e fomos jogar uns matraquilhos.

Este ano, já fui à Festa.

Para o ano há mais.

Tudo de bom,