Lições do meu velhote

Mário Fonseca é o nome do meu pai, o meu velhote.

Descansem, este não é um texto atrasado sobre o dia do Pai.

Mas, tendo sido uma influência e um exemplo, será normal que de vez em quando o chame aqui a dar uma ‘perninha’.

Desta vez para darmos um salto a 1986.

Eu tinha 14 anos. Portugal tinha entrado na CEE. E eras considerado ‘milionário’ com 5 mil euros (mil contos) 😮

Não era apenas a moeda que era diferente. E preciso de te contar como eram as coisas para entenderes este texto:

  • era fácil conseguir entrevista
  • era relativamente fácil conseguir um emprego

Por cada 10 curriculum que enviavas, devias conseguir umas 8 entrevistas. E a cada 8 entrevistas, devias conseguir umas 2 ofertas de emprego. O que te dava a oportunidade de escolher a melhor oferta.

Voltando ao Pedro de 14 anos.

Tinha acabado o ano letivo. Disse ao meu pai que queria trabalhar nas férias para ter algum dinheiro meu.

Hoje diz-se tráfico de influências. Na altura era cunha.

“Pai, arranjas uma cunha numa das empresas dos teus amigos?”

“Podia arranjar, mas vais ter de fazer a entrevista, aliás, vais enviar vários CV para estas empresas e vais fazer entrevistas em todas elas.”

Lembro de ter aceite, entre duas c***lhadas mentais.

Mas porque vou ter de fazer entrevistas, bastava que o meu pai falasse com alguém que me desse o trabalho a troco dos 500 escudos que queria receber.

Fiz umas três ou quatro entrevistas nesse verão e fui aceite na empresa (imagino que pela cunha e não por mérito).

O meu pai, explicou-me que um dia iria precisar de fazer entrevistas onde não houvesse cunha.

E que seria melhor estar bem preparado, por forma a saber o que dizer, como contrapôr ofertas, como negociar e a ter vantagem sobre os outros que também queriam a vaga.

Numa entrevista, há dois obstáculos: o entrevistador e os demais candidatos.

Difícil bater o entrevistador. É um profissional da área de recrutamento… já em relação aos outros candidatos, ‘bastava’ que eu fosse mais interessante que eles.

A partir daí, todos os verões ia a entrevistas de emprego. Devia ser um pesadelo para o RH de algumas empresas.

Imaginem um puto a ir aos ‘treinos’ de entrevistas.

Sem nervos, sem estar desesperado pela vaga, a contrapôr argumentos, a testar respostas.

Devo ter mais de 100 entrevistas no meu saco de competências. A minha checklist era o caderno de empregos do Jornal Expresso e podemos dizer que ia a quase todas.

Sim, eu sei que hoje já não dá para fazer o mesmo.

No entanto, a lição está aprendida.

  • Se tens de te colocar à prova para atingir alguma meta, treina.
  • Se queres vender sites, treina, treina, treina as tuas vendas.
  • Se queres chamar a atenção e fazer conversa com potenciais clientes, treina, treina, treina a aproximação e interação com outras pessoas.

Treina com amigos, com estranhos, treina em frente ao espelho.

Consegue um café à borla, convence uma mulher a pedir-te o teu telefone, inventa situações de treino e não descanses enquanto não o conseguires.

Depois, repete e descarta o fator sorte.

Para estares no pódio, tens de treinar diariamente as competências que usas na conversão para o teu negócio.

Quanto ao Mário, ainda trabalha (apesar dos seus 88 anos) e continua a ser um exemplo e inspiração.

E garantidamente assunto para mais textos no futuro.

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