Entrar na Tubitek é voltar à minha adolescência, onde faltei a muitas aulas da Fontes Pereira de Melo para ir ouvir discos.
Regressei mais uma vez na semana passada.
Entrei na loja, cumprimentei o Jorge e, entre conversas sobre tempos idos do Batô, comecei o ritual de sempre.
Folhear discos num gesto automático, repetido há tantos anos que já nem penso nele.
Espreitar capas.
Levantar meio vinil quando algo desperta interesse.
Ler contracapas.
Voltar ao ritual.
Ou tirar o disco para fora da caixa.
Numa dessas voltas, vi o disco The Miseducation of Lauryn Hill.

Capa conhecidíssima.
Um sucesso de vendas.
Um disco óbvio.
E pensei:
isto toda a gente conhece.
Mas conhecemos mesmo?
Pedi ao Jorge para ouvir o disco.
Quando a agulha pousou e o disco começou a tocar, apercebi-me que este disco não é um conjunto de singles.
Foi um recomeço da Lauryn Hill.
Alguém a sair de um grupo de sucesso e a encontrar a própria voz.
Ali não está a Lauryn Hill dos Fugees.
Está alguém a assumir imperfeições.
A misturar soul, hip hop, gospel, silêncios e confrontos.
A dizer coisas que não cabiam no formato anterior.
E enquanto o disco tocava, eu e o Jorge, fomos saltando em conversa para outros artistas.
Da Lauryn Hill para a Erykah Badu.
Dos discos Baduizm até Mama’s Gun.
E depois, chegámos a D’Angelo.
Brown Sugar.
E depois Voodoo.
Há alguma coisa neste disco que não está alinhada
Nunca dei muita atenção a Voodoo.
A bateria não está certinha.
Não está em cima do tempo.
Está ligeiramente atrás.
“É o chamado behind the beat”, diz-me o Jorge.
Uma decisão consciente de não alinhar tudo pelo computador.
De deixar espaço.
De deixar respirar.
É isso que cria o groove.
É isso que te faz abanar a cabeça sem perceberes porquê.
Se aquilo fosse perfeito, certinho, alinhado ao milissegundo,
seria correto.
Mas seria morto.
Trouxe os 4 LPs duplos para casa.
Estão em modo repeat desde que os trouxe.

O single e o álbum
Os discos tocam e vou conhecendo-os melhor entre músicas conhecidas, menos conhecidas e outras totalmente desconhecidas.
Toda a gente conhece os singles.
Pouca gente conhece o álbum.
O single chama a atenção.
O álbum constrói relação.
A confiança constrói-se como um álbum.
Faixa a faixa.
Com coerência.
Com tempo.
Tal como o disco da Lauryn Hill estava ali, à vista de todos,
mas só revela camadas a quem fica para ouvir,
há coisas que só fazem sentido quando não estamos sempre à procura da próxima novidade.
