Ainda a pintar o quarto

A mensagem do Estoico Todos os Dias para hoje é direta:

“Dê toda a atenção aos pormenores.”

E começa com uma frase de Zenão que me ficou presa:

“Que uma coisa bem feita, ainda que seja pouco a pouco, não é coisa pequena.”

Curiosamente, estes dias tenho andado a pintar um quarto cá em casa.

E enquanto passo o rolo pelas paredes, dou por mim a pensar numa coisa estranha: esta “obra” é só para mim.

Não há cliente.
Não há prazo real.
Não há validação exterior.
Depois de mobilado, provavelmente ninguém sequer vai reparar que aquele quarto foi pintado.

E isso levanta uma pergunta engraçada: que postura ter perante coisas que ninguém vai ver?

Ser perfeccionista e tentar deixar tudo impecável?
Despachar rápido só para fechar o capítulo?
Ou fazer sem grande atenção porque “ninguém vai notar”?

A verdade é que oscilo entre as três enquanto pinto.

Há momentos em que quero alinhar tudo perfeitamente, corrigir pequenas imperfeições invisíveis, voltar atrás.
Outros em que só penso: “isto já chega.”

Mas talvez o mais interessante seja precisamente o facto de ninguém ver.

Porque quando desaparece a audiência, sobra qualquer coisa mais honesta: a relação que temos connosco próprios enquanto fazemos as coisas.

Talvez seja aí que se perceba realmente como somos.

Se cuidamos dos detalhes apenas quando existe reconhecimento, ou se existe uma forma mais silenciosa de dignidade no simples ato de fazer bem, mesmo quando ninguém irá reparar.

Ainda não tenho resposta.

Só paredes pintadas e demasiado tempo para pensar.