“Digging” ou “retail digging” é o ato de procurar (e encontrar) um disco (vinil) que está escondido à vista de todos.
Enquanto o algoritmo das plataformas de streaming insiste em nos empurrar para o top de vendas ou as lojas destacam os clássicos que custam mais de 40€, eu tento encontrar alguma pérola esquecida numa secção errada ou no fundo da prateleira de “Promoções”.
Há uns dias, na FNAC encontrei um disco branco com uma simples foto a preto e branco.
Vejo um estúdio de música.
CARMINHO AT ELECTRICAL AUDIO

A capa não me pareceu de um disco de fado.
O título também não.
O preço? 15 euros. Trouxe-o comigo sem sequer ler a contra-capa.
Cheguei a casa, deixei pousar a agulha no vinil e começou a tocar “Os Argonautas”.
“Navegar é preciso, viver não é preciso…”
A voz da Carminho surge com uma transparência inesperada.
Sinto-me arrastado para o lado dela (e do Caetano Veloso).
Mergulhei na ficha técnica do disco e tudo fez sentido: o Electrical Audio, em Chicago, é o estúdio de gravação de Steve Albini.
O meu cérebro fez o clique imediato: este é o homem que moldou o som dos Pixies, da PJ Harvey e que deu ao In Utero dos Nirvana aquela textura crua que o Kurt Cobain tanto procurava.
Tinha de conhecer esta história de como o Fado Tradicional se tornou ‘Elétrico’.
Ao que parece, tudo começou com um desvio propositado.
Durante a sua terceira tour pelos Estados Unidos, no outono de 2023, Carminho não procurava apenas palcos, procurava uma experiência de limites.
O dia de folga foi premeditado: uma peregrinação ao noroeste de Chicago, ao bunker de tijolo de Steve Albini.
A fadista não ia às cegas. Conhecia o currículo de Albini, mas o que a atraía não era o estrelato do produtor (que viria a falecer subitamente na primavera de 2024, tornando este registo um dos seus últimos testamentos), mas sim o seu estilo de capturar o som tal qual acontece no momento.
Naquela manhã de 10 de outubro, a expectativa era pura: Carminho queria, pela primeira vez na carreira, sentir o peso da gravação em fita.
Queria a irreversibilidade do analógico.
O que começou como um exercício experimental acabou por se materializar num vinil.
Trabalhando lado a lado com Albini e os seus músicos, a instrumentação foi para lá do tradicional.
O fado, habituado ao eco das cordas de nylon e aço, encontrou novas texturas:
- O sopro fantasmagórico do Mellotron;
- O deslizar melancólico do Lap Steel;
- A eletricidade ríspida da Guitarra Elétrica.
Estes elementos, que Carminho já tinha começado a semear no álbum Portuguesa, floresceram em Chicago sob o olhar de Steve.
Em apenas um dia, a urgência do momento ditou o ritmo, e as quatro canções que compõem este EP foram imortalizadas.

A própria Carminho descreve o encontro como uma simbiose improvável. Para ela, a genialidade de Albini residia na sua capacidade de ser invisível para deixar a música ser real:
“Quem trabalhou com Steve Albini sabe da sua humilde autenticidade e dedicação à perfeição do som cru, e ele fez com que as gravações soassem como se estivéssemos a atuar numa casa de Fado em Lisboa. O nosso processo criativo neste EP foi uma verdadeira colaboração. A influência genial de Albini é inegável. Embora a indústria musical tenha perdido um talento incrível, de certa forma, ele vive nas nossas canções.”
No final, este disco de 15 euros perdido no meio de outras promoções lembrou-me que a arte reside na fricção e no choque propositado.
Reside no momento em que a mão de um engenheiro americano, habituado ao ruído de Seattle, se encontra com a garganta de uma mulher que carrega a saudade de Alfama.
Navegar foi preciso. E, para a Carminho, navegar até Chicago foi a forma mais honesta de regressar a casa.
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