Afinal o que é a dor?
Sem ser médico diria que é uma experiência desagradável, seja sentida física ou emocionalmente e associada a algum tipo de dano do corpo (ou da mente).
Difícil colocar coisas óbvias em palavras.
Mas será que tem um propósito?
A dor por si não é um fim, é antes um mecanismo do corpo que nos alerta para a possibilidade ou existència de uma lesão e que nos permite afastar da causa da dor.
É claro que uma dor de dentes dói mesmo muito.
Ou bater com o pé numa esquina do móvel, mesmo em cheio no mindinho.
De certeza que há um nome técnico para esta dor, talvez Dor aguda, sei lá.
Para mim é aquela que te faz sussurrar umas quantas asneiras para ti mesmo.
Depois tens aquelas dores sempre presentes.
Se praticas desporto sabes do que falo.
Por exemplo, no Jiu-jitsu, é comum acordar com os joelhos doridos, dedos inchados, e um pescoço rígido – marcas de um treino ‘casca-grossa’ que testa os limites do teu corpo.
Todos os dias, estas dores fazem questão em te cumprimentar assim que te levantas da cama.
E só te esqueces se tiveres uma nova dor, seja de uma queimadela do tatami, da chave de pé que sofreste ontem, do armlock em que não bateste a tempo ou mesmo da joelhada acidental do faixa branca que começou a treinar há duas semanas.
Estas são dores boas.
Incomodam, mas fazem-te sentir vivo e ativo.
Servem para lembrar de que cada desafio superado nos fortalece.
E esta exposição à dor pode ser positiva.
Acredito mesmo que seja.
Ao estares permanentemente em dor, começas a não sentir tanto o alerta para te afastares da causa e ganhas resistÊncia e habituação.
Acredito que o corpo acaba por se tornar mais eficiente em lidar com situações dolorosas, talvez sabendo como reagir.
Não em pânico, mas acalmando para resolver o motivo de tal dor.
Acho até que podemos desenvolver uma condicionamento pavloviano, onde perante uma situação que sabemos irá ser dolorosa, o organismo desenvolve uma resposta menos ansiosa que permite mitigar a nossa percepção da dor.
Fora do Jiu-jitsu tenho frequentemente de me expôr a situações dolorosas.
Seja a nível profissional, e mesmo pessoal.
Se não fôr uma situação imprevista e demasiado forte, tipo topada de pé, noto que consigo controlar e gerir a situação sem que a dor atrapalhe tanto.
Isto, porque o meu cérebro já não pânica quando sabe que vou enfrentar situações dolorosas.
Afinal, no final de todos os treinos, ninguém escapa à sessão de abdominais e prancha.
Independentemente de quantas pessoas treinaram, temos de fazer 50 abdominais diferentes por cada atleta e algum tempo de prancha.
No início fazemos 1 minuto, e custa.
Tudo dói, mas começamos a acrescentar 15 segundos de cada vez que fica confortável.
Ou seja, qualquer um de nós ao fim de uns meses, já se admira como um minuto já não custa nada e passamos para 2 ou 3.
Tudo isto porque treinamos em dor.
Quem vê admira-se e pergunta se não custa, se não dói e porque fazemos isto.
Fazemos para nos prepararmos para onde a vida nos empurra.
Fazemos para sermos uma melhor versão de nós mesmos.
Persistimos através da dor porque cada momento de desconforto é um degrau para uma versão melhorada de nós mesmos, mais forte e mais resiliente.
E se custa e doi?
É claro que custa e dói, mas vale a pena.
Tudo de bom,
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