Família à mesa

Na minha família, quarta-feira à noite era sagrada.

Era o dia em que todos se reuniam na casa dos meus avós maternos para um jantar que ia além da comida – era um ritual de união.

Não sei quando começou esta tradição, mas sempre tivemos este jantar semanal.

Exceto quando estávamos fora do Porto em férias, a quarta-feira à noite era intocável.

Os meus avós tinham negócio em Matosinhos.

Os meus tios trabalhavam em Matosinhos e no Porto.

Todos moravamos em Matosinhos.

E estes jantares eram longos.

Depois de comer, a minha avó servia café de saco.

Todos partilhavamos o café.

Alguns acompanhavam com alguma bebida, julgo que whiskey.

E ficavamos a falar pela noite dentro.

Ninguém podia sair da mesa.

Não havia sofá para ninguém e a televisão estava ligada sem som.

Partilhar semanalmente uma refeição sem interrupções cria um vínculo duradouro.

Conviver depois entre histórias, risos e até discussões (sim, somos uma família normal) fortalece o sentimento de união.

Houvesse bacalhau, ou apenas sopa.

Felizmente sempre houve ‘bacalhau’.

Mas todos sabiamos que 4ª feira era dia de jantar.

Ainda hoje gosto de ficar à mesa a conviver entre cafés com aqueles de quem mais gosto.

Foi o que aconteceu este sábado.

Depois do treino de Jiu-jitsu fomos almoçar.

Levei-os ao Vietnamesa em Matosinhos.

Éramos 5.

Eu e mais 4 putos de vinte e poucos anos.

Treino diariamente com eles.

Conhecemo-nos bem.

Sabemos as nossas forças, e também algumas fraquezas.

Entre pratos de Nem Ran e Pho falamos não só de porrada, mas também de mulheres, de trabalho e do futuro.

Falamos de coisas sérias em tom calmo, como também nos exaltamos com algumas histórias.

Ficamos umas 4 horas ou mais no restaurante.

Não havia distrações de telemóveis.

Todos estávamos unidos à volta daquela refeição.

A certa altura partilhei uma frase, que ouvi recentemente:

“não partilhes uma refeição, com quem não partilharias fome ou jejum”

No final, demos descanso aos empregados do restaurante e demos por terminada ‘a refeição’

Ao sair, a dona do restaurante perguntou-me se eram todos meus filhos.

“Não, não são, mas são família!”

Não sei se entendeu que não são família de sangue, mas com eles partilharia fome ou jejum.

É assim que gosto de estar com as minhas famílias.

Sejam com família de sangue ou de coração, ligamo-nos através da partilha e convívio.

Uma refeição, uma conversa, um riso de cada vez.

Tudo de bom,