Não sou devoto.
Não peço favores à santa.
Mas já pedi para lhe pedirem favores.
E a santa tinha uma alta taxa de realização dos pedidos.
Senta-te que vem história:
A minha avó criou-me. A mim e a todos os meus primos.
Chamava-se Maria de Lourdes. Em Matosinhos chamavam-lhe Lurdinhas.
O meu avô tinha uma loja de fazendas.
Nas traseiras da loja era a casa dos meus avós.
Estávamos no centro de Matosinhos, mesmo junto ao Parque Basílio Teles, em frente à Camara Municipal.
A minha avó estava, ora na loja, ora em casa.
Aquela casa parecia uma pensão, com todos os meus primos e tios a irem lá almoçar.
Fora do horário da escola, eu estava a ajudar o meu avô na loja ou a brincar na rua.
Voltando à minha avó.
Era uma devota, quase beata, de Nossa senhora.
Tinha um pequeno altar dedicado à Virgem onde colocava algumas velas quando queria que intercedesse por algum pedido.
Nunca fui bom aluno, era o típico aluno que estudava para passar de ano.
Já o meu primo mais novo, o Miguel, andava sempre aflito para passar de ano.
Tanto eu, quanto o meu primo pedíamos à minha avó que pedisse à santa para nos ajudar nos testes.
A santa não ajudava o meu primo.
Já no meu caso, não só ajudava, como eu tirava notas excelentes sempre que pedia.
A minha avó não sabia explicar o que acontecia.
O meu primo ficava furioso.
A minha avó lá tentava dizer ao meu primo que ela apenas pedia à santa.
Talvez tenhas feito algumas asneiras e Nossa Senhora não te ajude tanto.
A minha avó morreu no ano passado com 104 anos e nunca lhe contei ‘o segredo’.
E sim, uns anos mais tarde contei ao meu primo, mas pedi-lhe para não contar à minha avó.
Como eu sabia que a minha avó era tão devota, eu apenas pedia ‘ajuda divina’ quando tinha a certeza que ia ter boa nota.
E quando tinha uma negativa, a minha avó dizia-me…
Estás a ver? não pediste e a Nossa Senhora não te ajudou.
Para a minha avó, no que me dizia respeito: a santa tinha uma taxa de 100% de eficácia.
E eu era o caso de estudo que a minha avó necessitava para provar que a Nossa Senhora realmente intercede pelos nossos pedidos.
Afinal, quem não escolhe a dedo o caso de estudo para provar aquilo que quer, de forma conveniente?
Uma pequena mentirinha que tenho a certeza que a minha avó (e a santa também) me perdoaria.
Tudo de bom,