Ontem fui ao Bingo

A última vez que lá fui ainda se usava o escudo 😮.

Mas tinha uma hora livre e 10 euros para gastar.

À porta estavam umas 20 pessoas para entrar e assim que entrei na sala do Trindade, vi mais de 400 pessoas a murmurarem, provavelmente sobre a ‘injustiça’ de ainda não ter sido a vez delas de ter uma linha, um bingo ou até a possibilidade do prémio acumulado.

Vi uma mesa com alguns lugares livres ocupada por um casal jovem que aparentavam ter uns vinte anos. Perguntei se podia sentar. Disseram que sim.

Paulo e Joana.

A Joana já tinha vindo ao Bingo duas vezes. Trouxe o Paulo que ia fazer anos (faltavam 45 minutos para a meia noite) e nunca tinha sentido a emoção de riscar o cartão à medida que os números são cantados.

A cada cartão, o Paulo anuncia: “é desta, tem o 20… é a minha idade”, “é desta, tem o 24 e estamos em 2024”, “é desta, a minha mãe acabou de mandar mensagem de parabéns e desejou boa sorte”

Ao fim de uns cartões, de um momento bem passado com o Paulo e a Joana, tinha esgotado o orçamento de 10 euros. Apesar de insistirem para ficar mais um pouco, levantei e trocamos contactos.

Ao vir para casa, não pude deixar de pensar naquelas centenas de pessoas que visitam frequentemente o Bingo na esperança de encontrar ‘o bilhete dourado’.

E se é certo (pelo menos para mim) que o Bingo não dá garantia de nada (exceto de um momento bem passado à troca de 10 euros), muitos continuam a apostar na ‘estratégia’ da esperança.

Ir ao Bingo não te permite planear:

  • todos iniciam o sorteio com um cartão com 15 números aleatórios entre 1 e 90;
  • o teu orçamento apenas permite comprar mais cartões;
  • não podes escolher os números do cartão;
  • durante o sorteio, não podes adaptar e trocar cartões ou números, apenas antecipar e torcer que saia um número que possas riscar;
  • a cada sorteio há um vencedor preliminar (Linha) e o vencedor final (Bingo);
  • muitas vezes, ao abrigo da emoção do sorteio e da celebração momêntanea caso tenhas tido algum prémio, acabas mesmo assim a ultrapassar o orçamento;
  • de um sorteio para o seguinte, não há nada que possas fazer resultante de aprendizagem do sorteio anterior, exceto dizer quantos cartões queres desta vez;

A semelhança entre a minha noite de ontem e a forma como algumas empresas fazem a gestão de orçamentos de marketing, baseados em ‘estratégias de esperança’ é pura coincidência. Só pode.

  • 💸 Ninguém deitaria fora o dinheiro da empresa, apenas porque têem orçamento e podem dar-se ao luxo de gastar.
  • 💸 Ninguém deitaria fora o dinheiro da empresa, apenas porque os outros também deitam.
  • 💸 Ninguém deitaria fora o dinheiro da empresa, apenas para sentir a emoção de estar em jogo.

Hoje de manhã, recebi uma mensagem do Paulo. Fizeram uma linha. Não pagou a noite dos dois mas divertiram-se e agradeceram a companhia.

Desejei-lhes felicidades e juízo.

A ti, também. Juízo na gestão do teu orçamento de marketing.

Tudo de bom,

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