Como é a tua letra?

Sim, a tua letra. Aquela que sai quando escreves à mão. À pressa ou com calma, desalinhada, rasurada, tua.

Saberias reconhecê-la?

E as pessoas de quem gostas, reconheceriam?

Se deixasses um recado sem assinar, alguém diria: “Foi ele que escreveu”?

Pela forma como desenhas um “a”? Pela maneira como fechas os “e”?

E tu? Reconheces a letra de alguém? A dos teus pais? Dos teus avós? Aquele bilhete no frigorífico? A mensagem deixada ao lado da cama?

E os teus filhos? Reconhecerão a tua letra? Terão uma memória tua em papel? Algo que possam encontrar um dia — e reconhecer não só as palavras, mas a tua presença?

De vez em quando, escrevo. À mão. Cartas, postais, bilhetes.

Não para dizer grandes coisas. Às vezes é só para estar presente.

Não quero que abram a caixa do correio apenas por rotina.

Quero que sintam outra coisa. Uma curiosidade boa. Um brilho nos olhos. Como quem diz: “Alguém pensou em mim.”

Num mundo cada vez mais digital, há uma humanidade que se perde nos pequenos gestos. Escrever à mão é deixar rasto. Não só de palavras, mas de quem somos.

Talvez esteja na hora de escrever mais. Nem que seja só um “obrigado”. Só um “estou aqui”.

Porque todos merecemos mais do que contas na caixa do correio.