A Rita tem 17 anos e já não lhe conto histórias mágicas de fadas e princesas.
“Há muito, muito tempo, num reino distante, vivia uma linda princesa que tinha olhos azuis e cabelos castanhos…”
Perdi a conta a quantas vezes contei histórias à minha filha que começavam sempre desta forma.
É claro que a primeira justificação para o fazer é óbvia:
Ao mencionar uma personagem que se assemelha fisicamente a ela, a Rita sentia-se imediatamente mais ligada à história.
A partir deste momento, tudo o que acontecesse à princesa, a minha filha iria experimentar como se lhe estivesse a acontecer a ela.
A história seria vivida de uma forma mais pessoal e envolvente.
As histórias de fadas e princesas levavam a minha filha para um mundo onde tudo era possível, estimulando a sua imaginação.
Serviam também para ensinar valores como bondade, coragem e a importância de fazer o bem.
Ao viver os desafios e triunfos da princesa, a Rita aprendia o que é ser resiliente, justa e a pensar no impacto do que fazia aos outros.
Ao contar estas histórias, fortalecia também o meu papel de quem conhece o destino das aventuras da heroína, e posicionava-me como a companhia que garante a segurança e a tranquilidade.
Hoje, é esse o papel que desempenho junto da Rita e quero acreditar que as histórias me asseguraram esse papel.
Também conto histórias que não começam por “Há muito, muito tempo, num reino distante, vivia uma linda princesa que tinha olhos azuis e cabelos castanhos…”
Conto histórias da minha vida para um público adulto.
Acredito que pode ser uma forma poderosa de comunicação e ligação contigo.
Mas eu não quero assegurar o papel de quem conhece o destino das personagens, nem pretende posicionar-se como a companhia que garante segurança e tranquilidade.
Por isso troquei a linda princesa, pela partilha de vários relatos do meu diário de memórias.
Cada história com o seu valor.
Por vezes mais profundo e intenso, e outras vezes mais superficial e até anedótico.
Imagino cada história como um pequeno quadrado de retalho semelhante ao que a minha avó fazia nos tempos livres.
A cada história, permito que vejas uma representação do meu dia-a-dia e talvez te leve a relacionares-te comigo.
Quem sabe até a partilhares situações semelhantes pelas quais tenhas passado.
Imagino também, que ao contar estas histórias, mantenho vivas as lições, as pessoas e os locais, ajudando a relembrar como era a vida em determinados locais e tempos passados.
Sei que as minhas histórias são simples, mas tento também usar este exercício para trabalhar a minha criatividade, a estruturação da história, a forma de transmitir emoções e ainda a trazer a disciplina para o que faço.
Por fim, sinto que a cada história contada, crio mais um quadrado para fazer a minha manta de retalhos.
Uma manta que me representa num todo que possa ser agradável à vista e ao toque de quem queira ver, tocar e até usar esta manta.
Mas verifiquei que ao longo destes meses, houve quem fosse também criando e partilhando os seus quadrados que encaixavam perfeitamente no trabalho de patchwork que estava a tentar fazer.
E quando dou por ela,a manta já não é só minha com os meus retalhos, mas nossa.
- nela vejo as cores de que me falas.
- junto as músicas que partilhas.
- as dores sentidas por vivermos momentos idênticos.
- os risos de situações partilhadas.
Aprendi a fazer novos retalhos com as lições que me dás.
E quando pensamos que a manta está pequena, eis que alguém te oferece mais uns quadrados para lhe acrescentar.
E juntos vamos, como num conto de fadas e princesas rumo a um… “e foram felizes para sempre.”
Tudo de bom,