Não me lembro de como costumava acabar esta frase quando era miudo.
Não vou dizer que queria ser bombeiro, polícia ou astronauta.
Não me lembro.
Mas houve uma altura em que soube mesmo o que queria ser.
Estávamos em 1984 e os meus pais ofereceram-me de prenda de anos:
O ZX Spectrum 48K.
Vinha com uma condição:
Tinha de saber fazer mais coisas com ele do que apenas jogar jogos depois de teclar LOAD “”
“Pedro, o Spectrum é como um bom alimento, mas terás de trabalhar em cima desse alimento, como se fosse um treino físico”
Juntamente com o computador, o meu pai inscreveu-me num curso de Algoritmia e linguagem Assembly.
Imaginem um puto de 12 anos, no meio de uma sala de aula com engenheiros e contabilistas.
Fui a mascote daquela formação.
Quando cheguei ao fim da formação, tinha criado um pequeno sistema de gestão de semáforos que acendia luzes vermelhas e verdes num cruzamento fictício.
Também tinha um novo objetivo:
Sabia que quando fosse grande queria ser… programador informático.
Focado e com o apoio dos meus pais, dediquei-me a percorrer o caminho para ser programador.
- lia tudo o que encontrava sobre linguagens de programação (difícil numa época pré-internet).
- estudei no Fontes Pereira de Melo, no primeiro ano que tiveram Informática, ali junto ao Bessa quando a escola inaugurou as novas instalações.
Mais tarde, entrei no ISEP.
Pelo meio ainda fiz Erasmus em Leeds, e acabei o curso em 94.
Era oficialmente ‘Informático’.
Trabalhei como informático durante 3 anos para depois decidir que não o queria ser mais (depois explicarei esta história).
Fui informático, formador, consultor, especialista em informática hospitalar, em protocolos de comunicação, até em privacidade e no regulamento geral da proteção de dados entre muitas outras ocupações.
Parece que para termos um propósito temos de ser alguma coisa.
Basta olhar para os títulos nos perfis do LinkedIn.
Vou-te confessar uma coisa:
Tenho 51 anos e ainda não sei o que sou.
Sei o que faço, mas não quero que isso determine o que sou.
E há coisas que acho que faço bem.
Ser bom pai
Tal como aprendi dos meus, permito que a minha filha siga o seu sonho, que é ser bailarina.
Se aos 51 ainda ando perdido, quem sou eu para cobrar o que quer que seja à minha filha?
Mas ao longo do caminho, cada passo que dá, coloco-lhe apenas uma condição: não pode ser apenas ‘dançar’, pelo que lá vai fazendo formações, trabalhando na área artística, sendo empreendedora, e ‘pagando’ com trabalho e suor (para além daquele da dança).
Também ela, está com bons ‘alimentos’ mas sempre com a condição de ‘treinar’
As lições dos meus pais, já foram digeridas e refletiram mudanças em mim, e tal como um bom alimento e treino, criaram a musculatura e o corpo que hoje me carrega.
Espero que o mesmo o esteja a conseguir passar à minha filha.
Quanto a estes textos, partilho contigo algumas experiências, histórias e lições que já foram também bem digeridas.
Não pretendo ainda colocar-te condições ou dar-te algum ‘treino’. Também eu estou a percorrer este caminho da escrita diária.
Não quero correr o risco de fazer como muitos ‘gurus’ que recebem preceitos crus e que os querem ‘vomitar’ imediatamente como um estômago doente faz com os alimentos.
Ainda não sei acabar a frase: Quando for grande quero ser…
Mas sei que não sou definido apenas pelo que faço, mas pelo legado das minhas ações, pela minha resiliência e pela profundidade das relações que criei.
E tu, já sabes o que queres ser quando fores grande?
Tudo de bom,