Olá,
Deitado numa cama hospitalar Hillrom entrei no internamento de Cardiologia do Hospital São João após ter estado 1 hora e meia na Unidade Cardiologia Invasiva.
“Eles só te vão fazer umas cócegas ao coração”, tranquilizou-me a Sónia, hoje enfermeira, que é amiga desde o Secundário.
Anteontem acabou este episódio, que começou há 18 anos.
Em 2006, detetaram-me um Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW).
É como se tivesse uma espécie de atalho elétrico no coração que pode fazer com que ele bata de forma anormal.
Habituei-me a conviver com o meu amigo WPW.
Todos os anos fazia um eletrocardiograma, e confirmavam-me que o WPW ainda lá estava a tocar uma quase silenciosa sinfonia onde o tal atalho elétrico criava uma batida irregular, desafiando a harmonia teimosa do meu batimento cardíaco.
Sempre que me confirmavam no ECG a sua presença (que nunca se manifestava), lembrava-me da cena do filme “O Fabuloso Destino de Amélie”, onde a Amélie foi diagnosticada de ter batimentos cardiacos rápidos, sem os ter.
Na realidade, era o único momento em que Amélie tinha contacto físico com o seu pai, e por isso revelava as tais ‘taquicardias’ nesses momentos de vulnerabilidade, mas que não a afetavam no seu dia a dia.
Também o WPW me lembrava da minha vulnerabilidade, mas o risco dos batimentos anómalos nunca foi impeditivo de nada.
Nunca, até ter atingido a meta dos 50 anos e decidir que queria começar a competir em Jiu-jitsu.
Desta vez, os médicos da Medicina Desportiva foram peremptórios e soltaram um vociferante:
“Não podes competir! O WPW aumenta de risco a partir dos 50 anos”
Senti tudo a cair.
Fui traído pelo WPW precisamente quando tinha tudo planeado e estava a menos de 6 semanas para a competição.
“E alternativas Doutor?”, perguntei à procura de soluções imediatas.
“Se fizeres uma ablação, podemos ‘queimar’ o atalho elétrico através de um catéter inserido no coração”
“E depois?”, perguntei-lhe.
“Queimando o atalho, deixas de ter o Síndrome.”
“Quando chega a hora, precisas saltar sem hesitar”, lembrei da frase da Amélie
Sem pensar muito, pedi que avançassem com o agendamento da ablação.
E agendaram.
Para dia 26 de abril, ou seja anteontem.
O procedimento durou uns 90 minutos mal contados.
Deu para rirmos, falar das minhas tatuagens, até de me gozarem por tremores incontroláveis, em que eu dizia serem de frio e me responderem serem inadmissíveis num casca-grossa jiu-jiteiro.
Apesar da anestesia local, lembro do que foi acontecendo entre momentos lúcidos, outros nem por isso, e uma ou outra viagem por conta da droga administrada.
Sei que a determinado momento despertei (mais tarde soube que no seguimento de aplicarem choques por ter tido uma arritmia) e perguntei se já tinham despachado o WPW.
O médico olhou para mim e riu-se.
“Foi desta para melhor de vez!”
Deitado refleti sobre minha jornada com o WPW.
Havia sido uma longa estrada, pontuada por alguns momentos de incerteza, mas também por episódios de determinação e esperança renovada.
A ablação não foi apenas o fim de uma condição médica.
É uma metáfora para a minha própria transformação.
Lembrando as palavras de Amélie, percebi que, assim como ela encontrou coragem para mudar sua vida, também eu encontrei a coragem para enfrentar desafios cardíacos e reclamarar o meu espaço nos tatamis de Jiu-jitsu.
Com espírito rejuvenescido, estou agora mais pronto do que nunca para enfrentar qualquer desafio que venha na minha direção.
Que nunca umas ‘cócegas’, um medo ou uma dúvida me afastem do que realmente quero fazer.
E espero que a ti, também não.
Foi com um grande sorriso a imaginar-me nos tatamis da competição que deitado numa cama hospitalar Hillrom entrei no internamento de Cardiologia do Hospital São João e dei “Boas tardes” ao Nuno H. e à Maria F.
Mas esta história contarei amanhã.
Tudo de bom,